terça-feira, 8 de novembro de 2016

O DIA QUE O SER HUMANO ME DECEPCIONOU

Todos os dias o ser humano me choca, às vezes me confunde, muitas vezes me impressiona, outras me assusta. É um misto de emoções e sentimentos  a cada minuto. Mas hoje, hoje foi diferente. Hoje o ser humano me decepcionou. 

Um médico ao escolher olhar para seu paciente como um objeto de pesquisa, uma cobaia, uma possibilidade de vitória, ao invés de olhar pra ele como uma pessoa, me decepcionou. Pode parecer contraditório pra quem lê, mas hoje ao não saber quando parar, um ser humano me decepcionou.

Um médico que luta pela vida de seu paciente muitas vezes é tudo o que queremos, precisamos, esperamos. Mas não hoje, hoje era preciso um médico que fosse capaz de dizer a verdade, de olhar nos olhos do seu paciente e dizer: vive o tempo que lhe resta, viaje, ame, coma, sorria, torça pelo seu time, comece a se despedir, a medicina ocidental falhou com você. Sinto muito, mas ela não deu conta do recado.

Ao invés disso o médico olha pro paciente e diz: tira seu visto logo, vou me reunir com outros médicos, tem um medicamento fora, deixa sua viagem com sua esposa e adianta os documentos para um tratamento fora.

O que eu queria perguntar a esse médico é: você tem noção de como seu conselho foi cruel? Você tem noção do que está dentro dessa sua pergunta? Você entende que você está pedindo a seu paciente que pegue aquela viagem que ele sonha em fazer desde a época em que adoeceu e que foi sendo adiada pra quando ele melhorasse por conta de suas vãs promessas, para que jogue-a no lixo e vá atrás de mais uma esperança vazia? Você entende que você está pedindo a ele que troque uma viagem de felicidade e amor por uma vazia? Você entende que você está aconselhando a ele que corra atras de mais tempo, e que o tempo que ele supostamente vai ganhar vai ser gasto em busca de mais tempo? Você não vê como isso é paradoxal? Como isso é um ciclo? Ou você não entende?

Se você entende, Dr. o senhor é cruel. Se não entende, é egoísta. E de qualquer um dos jeitos, você é incapaz de enxergar a dor do outro, de reconhecer que não foi a primeira nem última vez que a medicina falhou e falhará, que ela decepcionou. 

Até que ponto vai sua necessidade de acreditar que isso é o melhor pra ele? Ou será que você pensa no que é melhor pra você? Será que é mais fácil, menos dolorido, o senhor decepcionar outro ser humano, a ser decepcionado pela medicina?

Sua preocupação se resume a tempo, quantidade de dias vividos, a uma busca inconsequente por tempo, por esperança, eu só queria deixar um recado para o senhor, antes a medicina me decepcionando, do que um ser humano me decepcionando. Dói mais. 








quarta-feira, 24 de agosto de 2016

(Re)Colisão

O texto de hoje, depois de tanto tempo sem postar veio de um leitor do blog. Uma alma deslocada, mas intensa, forte, decidida e linda. A cada linha dá pra sentir a emoção da pessoa enquanto ela escrevia. É um texto belíssimo, que mais do que merecia ser publicado, e essa honra veio para mim. Agora deixo vocês com essa obra de arte.

"Já não poderia esperar por aquela fração de segundo, por aquele pedaço de tempo e espaço tão almejado que me levaria ao eterno, ao virtual, afinal, a espera sempre me aflige mas em forma de colapso. Do rompimento ao renascimento, paradoxalmente me sentia prestes a entrar em propulsão como um foguete rumo ao desconhecido, ao extraterreno e inóspito, mas com os pés ali, alocados no mais fixo dos ladrilhos ao solo.

Quando você me deixou na viela da desolação e sem explicação, segui calejado o curso natural da vida sem ao menos realizar o que de fato havia se sucedido naquele súbito adeus. Mal sabia que, apesar dos pesares, as leis da física sobre atração desconsiderariam a repulsão transformando-a em esperança de re-colisão de nossas almas atrativas não por pólos opostos, mas por complementação do que sempre foi e que novamente deveria ser.

Pelo recontato tive a certeza de que aguardar pela sua concretização, toda a espera não havia sido em vão. Em câmera lenta você reapareceu, deslumbrante na simplicidade de estar apenas voltando de alguma atividade rotineira, mas que foi suficiente para que os ponteiros dos relógios mais precisos se estremecessem como simples filetes de papel, onde mais nada fazia sentido.

Seu perfume musicalmente inconfundível ecoava como suaves melodias em tom maior, tão encantadoras ao meu olfato sempre muito aguçado e interpretativo, que se tornaram um esvoaçante golpe de aromas transportáveis ao onírico lado da minha incessante mente sensibilizada pela sua presença. Sua voz como um abrigo, seus sorrisos e sonoras risadas como a trilha sonora dos meus dias, seriam um alento, pois estes são quase sem nenhum clímax cinematográfico capaz de prender a atenção do espectador mais assíduo e exigente.

Seus lábios tão particulares são um caso a parte da perdição que meus olhos já não conseguiam se conter em tamanha vontade de tocá-los da forma mais sutil e sensível que já se tem conhecimento científico. Seus olhos somados e fitados aos meus através de suas lentes quase interruptivas, é atração, sugção, confluentes aos meus anseios mais internalizados por sua alma.

Das memórias passadas, me contive apenas em protegê-las em mim com uma certa dose de carinho para não perder a essência do que o amor exala: a sensação de que tudo para, de que a felicidade se torna plena e incontestável aos olhos dos demais, mas para os meus, cinematicamente há um enredo particular de momentos mistos e apaixonadamente gratificantes. Se isso tudo não for por você, já não me considero em plena sanidade mental para questionar tal fato, mas tenho a certeza de que sua presença em meu círculo vital já me basta, por enquanto, para me situar diante de tamanha liberdade emocional. Estas letras em forma de afago mostraram com clareza a tal Esperança que se provou invicta através de você, menina, mesmo com minha insistente descrença de que um dia ela pudesse triunfar".

Autoria: alma intensa.O nome verdadeiro será mantido em sigilo a pedido do autor.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

EU FALHEI HOJE, MAS EU TAMBÉM VENCI

Não é raro passar pela minha cabeça que eu falhei mais um dia. Falhei com o que o sistema espera de mim, falhei com o que eu espero de mim e falhei com o que a sociedade precisa de mim. 

Nesses momentos percebo que eu falhei com o sistema tanto quanto ele falhou comigo. Não consigo me encaixar nele, e não consigo fazer nada de útil para mudá-lo. 

Assim como toda a humanidade, só queria poder fazer um trabalho digno, por um salário digno, que me desse tempo para ajudar os outros, ver meus amigos, curtir minha família. A verdade é que isso é praticamente improvável na minha situação atual. E tem horas que realmente perco a fé em mim, e penso que no fim serei só mais uma pessoa que vive no automático, lutando para sobreviver, e que um dia olhará para trás e se arrependerá de tudo. 

Às vezes sinto que uma hora vou ter que ceder, vou ter que me integrar ao sistema que tanto me enoja. Um sistema que valoriza mais o que você tem do que o que você é, que quer cada vez mais de você em troca de cada vez menos. 

Um sistema ingrato, desumano, voraz, que engole a pessoa e a humilha, chama de fraca, e destrói aos poucos. Um sistema que cada dia lota mais os pronto atendimentos dos hospitais com jovens com problemas cardíacos, psiquiátricos, estomacais, por conta de todo o stress, pressão, arrogância, descartabilidade e falta de humanidade que enfrentam diariamente. E quando temo acabar me rendendo a ele, sei que é só questão de tempo até eu ser a próxima a passar por tudo isso. E não posso, não quero, não admito viver assim. Não nasci uma máquina, e me recuso a me tornar uma. 

Sinto que eu falho todos os dias que não consigo achar um espaço para me encaixar no mundo, que não consigo pensar em como fugir do sistema e ao mesmo tempo viver nele. É um desafio cruel. Achar uma alternativa que me mantenha humana no meio de tantas máquinas é extremamente difícil, doloroso, e pesado. 

Estagnei entre o que não fazer e o que fazer. Preciso dar o próximo passo e descobrir o que fazer, porque só saber o que não fazer não é o bastante, nem para mim, nem para a sociedade. 

Agora qual é o próximo passo? Achar um emprego que me permita ganhar o bastante para pagar minhas contas, minha educação e me possibilitar ajudar a quem precisa. Procurei, procuro ainda por esse emprego, mas o que eu acho na  minha área são salários que não pagam nem metade do valor do meu mestrado e nem me possibilitam ter tempo para assistir às aulas. 

A realidade é dura, cruel, não perdoa ninguém, e lidar com ela exige muita força de espírito, muito foco para não se render a esse tipo de emprego só para ter a sensação de que se está fazendo algo, tentando algo, que um dia isso vai melhorar. 

É preciso muita força, coragem, autoconfiança e apoio para chegar a fim do dia tendo em mente, que eu posso até ter falhado hoje por não ter conseguido descobrir o próximo passo, mas eu também venci hoje por não ter cedido e ter me conformado com tudo perpetuando um sistema que sempre quis mudar. 

Por isso meus amigos, eu digo: há dois anos que falho todos os dias, mas há dois anos que venço todos os dias. E vai chegar um dia que vou conseguir dar o próximo passo para lutar contra o sistema, é só continuar buscando. 

Nesse dia terei orgulho de mim, e terei certeza do que já acredito hoje. Todas as críticas, as cobranças, e até as palavras não muito gentis que ouvi não foram para me aborrecer, mas sim pelo medo que tiveram por mim, do que eu me tornaria. 

A intenção foi boa, mas meu caminho nunca foi o apontado pelas outras pessoas, foi o que eu escolhi, não por medo, por orgulho, teimosia, ou por sede de poder e dinheiro, mas por mim, pelo outro que precisa de mim e pela vontade de fazer que ao menos mais uma pessoa compreenda que é sim de grão em grão que a galinha enche o papo. Não se muda o mundo da noite pro dia todo de uma vez, mas ao longo de anos, por meio de uma pessoa que muda outra pessoa, que muda mais uma, e gera uma corrente. 

Quem já luta contra o medo, as críticas e os ataques há dois anos, e sente todos os dias que falhou mais uma vez, mas que sempre lembra no fim da noite que também venceu mais um dia, não vai ceder tão fácil. Persistência, fé em mim e na humanidade, amor ao próximo, desejo de contribuir para um mundo melhor onde as pessoas vivam e não só sobrevivam, tudo isso me ajudará a descobrir como viver no sistema atual sem me vender a ele. Espero que ajude vocês também! Afinal, trocar uma situação ruim hoje, por outra ruim amanhã só para atender as expectativas alheais, não é a solução. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

E A CURIOSIDADE MAIS UMA VEZ MATOU O GATO

Ao acordar li uma notícia maravilhosa, uma menina que havia desaparecido há dois dias foi encontrada pela família. Quando vi isso agradeci profundamente a Deus.

O que me chamou atenção foram os comentários da notícia. Algumas pessoas queriam explicações do que havia acontecido, algumas davam a entender que as informações sobre o ocorrido não eram suficientes. E aí eu me peguei pensando, por que tanta curiosidade? A movimentação virtual foi um meio para ajudar a encontrar a garota, esse era o objetivo. Ela foi encontrada, objetivo cumprido. Por que as pessoas querem tanto saber o que aconteceu com ela nesse tempo? Saber os detalhes do que ela e a família passaram? Vontade de ajudar um pouco mais ou mera curiosidade? 

Se for a primeira opção acho válido a intenção, mas não a busca por detalhes em meios de comunicação públicos. Procure a família se você quiser e puder ajudar, mas saiba respeitar o espaço dela também. Não é porque você quer ajudar que a pessoa é obrigada a corresponder.

Se for a segunda opção, realmente não entendo. A publicidade dada ao desaparecimento foi para que o maior número possível de pessoas tivessem conhecimento do fato para ajudarem com informações caso se deparassem com ela, ou tivessem notícia dela depois da última informação que a família tinha antes de seu desaparecimento. 

Creio que em momento algum a família quis expor a menina, ou se comprometer a explicar depois o que havia acontecido. Ao mesmo tempo, creio que quem compartilhou a notícia o fez com a intenção de ajudar a família a encontrá-la, e sem esperar nada em troca, nem mesmo uma satisfação que vá além do que foi divulgado: ela foi encontrada, está com a família, estão tomando as providências necessárias. 

Por outro lado se alguém acha que tem "direito" de saber o que aconteceu em detalhes e quer uma satisfação, essa pessoa não pensou bem no impacto que a publicidade dessa informação poderia ter dependendo do que aconteceu nesses dois dias; não pensou que a garota e a família iam ter que reviver tudo sempre que entrassem na internet, que saíssem na rua, que fossem viver sua rotina no ambiente de trabalho e de estudo; talvez tenha esquecido de que atualmente uma vez divulgado algo, esse algo fica para sempre disponível ao mundo todo. 

E foi quando pensava nisso que me veio à cabeça o ditado "A curiosidade matou o gato". Nesse caso ela pode matar a paz alheia, a privacidade e intimidade alheia, perpetuar e renovar a dor alheia, pode matar um pedacinho da alma dessa menina, pode matar o desejo dela de deixar tudo o que lhe aconteceu para trás e de focar no agora. A curiosidade realmente pode matar o gato, cabe a nós saber controlá-la para deixar o gato viver. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O DIA QUE ENTENDI A LIGAÇÃO ENTRE AS PESSOAS

Quantas vezes você já encontrou alguma pessoa e ficou com aquela sensação de "a gente já não se conhece?" E quantas pessoas já te disseram exatamente isso?

Quantas vezes você já sentiu que "seu anjo não bateu" ou "bateu demais" com o de certa pessoa? 

Quantas vezes alguém já lhe parou na rua para dizer que você lembra alguém, mas que ela não sabe exatamente quem?

Bom, como já deu para perceber pelos meus outros textos sou uma pessoa que vive pela intuição, que confia nela, e que aprendeu a deixar de ser cética. 

Não entendo tudo, não sei tudo, mas já aprendi a nunca ignorar uma intuição, um pressentimento, um sonho que parece algo a mais. 

Muitos nunca pensaram sobre isso, muitos nunca se incomodaram com a constância que isso acontece, mas eu sim. Tentei ignorar, busquei explicação lógica, médica, científica, e acabei percebendo uma coisa no meu interior, além de tudo isso. Entendi que há algo que conecta almas além do tempo e espaço, e a forma que isso ocorreu conto agora.

Passar por todas as situações acima era algo comum para mim, eu achava engraçado, e nunca tinha parado para refletir, mas um certo dia, por um breve momento tudo mudou. Ouvi uma voz que despertou em mim algo indescritível, que vai além da nossa capacidade de expressão, e que me dizia que eu já o conhecia de longa data.

Quando o vi o sentimento ficou mais forte, mas era estranho pois eu não lembrava dele, era a primeira vez que o via, tinha certeza. Fiquei deslumbrada com aquilo que se agitava em mim, que me aquecia, que me fazia querer vê-lo nem que fosse por um minuto só para sentir aquilo de novo. 

Ao mesmo tempo era tudo muito confuso. Não era nada que eu já tinha experimentado na vida e me assustava um pouco. Eu só o observava de longe, até o dia que ele se aproximou e perguntou meu nome, foi aí que eu soube, não era só eu que o reconhecia, ele também me reconhecia, e estava mais perdido do que eu.

Aos poucos começamos a nos aproximar e foi uns dias depois, quando ele me tocou pela primeira vez que eu finalmente entendi. A ligação que nós dividíamos por um segundo me tirou o ar, fez meu coração palpitar, fez uma onda de energia boa passar por mim. Esse dia marcou minha vida. Foi aí que tudo fez sentido. Eu entendi.

A confusão gerada pelo reconhecimento instantâneo despertado pela voz dele e a certeza de que não o havia visto antes fez sentido. Não era uma confusão. Na verdade era extremamente simples. Eu não conhecia a aparência dele, mas eu conhecia a essência dele, a alma dele. 

No instante que ele me tocou tive uma memória de sentimento consciente pela primeira vez. Foi quando entendi que a gente tem memória não só do que está gravado em nossa mente, mas do que a gente sente, e essa é tão poderosa, tão vívida que ela ultrapassa o tempo e o espaço. 

Eu não sabia que isso era possível, como era possível, até que comecei a juntar as peças de um quebra-cabeça que eu vinha montando e não conseguia terminar. Foi quando lembrei que eu já havia vivido com ele antes, por muito tempo, não podia lembrar da forma, da aparência, mas a lembrança da alma era nítida. 

Há séculos nos caminhamos juntos, e isso me fez ter certeza que existe algo muito além do que vivemos aqui, que como li outro dia em algum lugar "não somos seres terrenos passando por uma experiência espiritual, somos seres espirituais passando por uma experiência terrena".

Há coisas que ao passar do tempo e das reencarnações nós esquecemos, mas a nossa essência fica. As nossas ligações com outras almas permanecem, e variam conforme a intensidade de convivência e capacidade de ligação entre cada um de nós. Daí às vezes temos a impressão de que conhecemos alguém, de que nosso anjo não bateu com o da outra pessoa, e entendemos tudo quando reencontramos almas ligadas da forma mais intensa possível à nossa.

Se você já viveu algo parecido, você sabe do que estou falando. No meu caso foi com meu namorado, mas já vi acontecer com amigos e irmãos também.  Se não, ao menos considere a possibilidade de que isso pode acontecer. Nada é mais belo, intenso, alegre, e grandioso.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

AMAR É...

Amor é o sentimento sublime. Definido por alguns como uma construção diária entre as pessoas, por outros como "amor à primeira vista", por poucos como algo racional, que vem da mente, e não da alma.

Qual dessas visões é a correta? Não importa. Não mesmo. A divergência de opiniões é saudável. O que você acha que é amor não significa nada quando ama. E todos nós sabemos quando estamos amando.

Amor é algo presente no mundo desde que os seres vivos surgiram. Algo tão poderoso e forte, que gera temor em alguns, confusão em outros, mas que todas as pessoas do mundo reconhecem: algo que não pode ser descrito, que não pode expresso por palavras, que às vezes até mesmo faz com os gestos pareçam pouco.

Cada um mantenha sua crença do que é o amor, só não vale deixar de amar por uma decepção, uma confusão, por medo, por achar que o peito vai explodir, ou por achar que não está sendo racional, por acreditar que confiança jamais pode ser quebrada. Afinal, sejamos sinceros, quem nunca quebrou a confiança no amor?! Mas quantos foram capazes de deixar o orgulho e o medo de lado e viver a confiança de novo?

EU, EUZINHA, Fernanda, tenho em mente que amor é uma ligação entre almas que se reconhecem quando se encontram. Não creio que é algo a ser construído, trabalhado, melhorado. Acredito piamente que é o entrelaçamento mais puro entre as almas, e que não é o amor que precisa ser modelado, mas sim o medo, a ansiedade, o ciúme, a inveja, a confusão por não conseguir expressar em palavras o que está acontecendo, a quebra da confiança. 

O amor não é complexo. É simples. É puro. É grandioso. O que atrelamos a ele com nossas fraquezas que é complicado, e é isso que precisa ser trabalhado.

Minha alma se ilumina de energia positiva quando vejo casais que viveram juntos por décadas, que se amam por décadas. Mas ela também se aquece quando vejo pessoas que não suprimem sua capacidade de amar mesmo depois de enfrentar tantas dificuldades pelo caminho. Mesmo quando "dá tudo errado". Mesmo quando saem em pedaços de um relacionamento. Mesmo com todos os poréns que enfrentaram e não deram conta naquela vez. 

Amar um uma pessoa eternamente é lindo. Amar várias também é. 

Para muitos isso é fraqueza, é agir pelo ímpeto, é falta de responsabilidade, é não saber amar. Para mim isso é não abandonar o amor, é manter o coração aberto para quando ele bater à porta novamente,

Se ilude quem acha que todos os seres humanos só podem amar uma vez na vida. 

Queridos, se vocês só amaram uma vez na vida, isso não te faz melhor que ninguém. Muitas almas amam mais de uma. E daí? Qual o problema nisso? Elas conseguem manter o amor dentro delas pronto para ser despertado novamente, ao invés de trancafiado como se amar mais de uma vez fosse pecado. 

Amar não é pecado. Amar não é errado. Amar não está sob o controle de ninguém. 

Monogamia é uma construção social e religiosa, ou uma opção. Nada além disso. 

Relacionamentos abertos não são uma aberração. São uma escolha tão saudável quanto a monogamia.

O que quero dizer é viva e ame intensamente. Quando amamos sabemos que é amor. Não interessa a definição dada. Amem livremente, puramente, respeitosamente, surpreendentemente, com o friozinho na barriga mesmo, com as palmas das mão suadas, com aquela vontade de se amarrar na pessoa amada, até mesmo com o medo de perder e com o ciúme, só não deixem esses superarem o amor. Trabalhem os "contras", o amor não precisa ser trabalhado, construído ou pensado. Basta vivê-lo.  



sábado, 13 de fevereiro de 2016

PELO FIM DA HIPOCRISIA NOS CONVITES E COMPARECIMENTOS SOCIAIS

Todos nós passamos por uma situação social ou outra que não queremos estar presentes, mas mesmo assim somos "obrigados" a estar. Quantas pessoas já convidamos por obrigação torcendo para a pessoa não ir? Quantas vezes já comparecemos a um evento por obrigação rezando para o tempo passar rápido? 

O fato é que essas convenções sociais já encheram o saco. 

Chega das situações em que a pessoa te convida porque alguém entende que tem que te convidar ou porque ficaria muito feio não te convidar. 

Chega das situações em que você vai porque alguém te diz que você tem que ir porque se a pessoa te convidou é porque faz questão de você lá, ou porque ficaria muito feio você não ir. 

Quando as duas situações acima coincidem -  e não são poucas as vezes que isso acontece - haja hipocrisia, falsidade, preocupação com as aparências. Já deu né?

Sou a favor de convidarmos só quem realmente quisermos, e de irmos só quando de fato desejarmos. Se as coisas funcionassem assim, já pensou em como as festas, coquetéis, brunchs, almoços e jantares seriam ambientes mais agradáveis, leves e com uma energia toda positiva? 

Recebo muitas críticas por pensar assim, mas a verdade é que sou dessas "revoltadinhas com convenções sociais". Afinal para mim, a maioria só existe porque nos preocupamos muito com a opinião alheia, com o que esperam de nós, com as aparências, e porque nos preocupamos de menos com nossa opinião, com o que queremos, com nosso bem estar.

Sou dessas que preferem fazer o que quer ao invés do que esperam de mim. Se os dois coincidirem bem, senão amém!

Sou dessas que preferem um ambiente com 10 pessoas que de fato queriam estar comigo, do que 100 que estão ali por mera convenção social. 

Sou dessas que querem mudar o sistema por achá-lo corrompido demais pela vaidade. 

Sou dessas que acreditam que se cada um fosse honesto consigo mesmo e com o outro, os ambientes sociais seriam melhores. 

Sou dessas idealistas, do contra, sem noção, e de tudo o mais que já me chamaram. Sou mesmo e não tenho vergonha disso. Sou quem sou, e não quem vocês querem. Suck it up!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

AS PESSOAS ESTÃO SE TORNANDO MELHORES, E NÃO PIORES COMO PODE PARECER

O número de pessoas que se diz descrente da humanidade, que tem certeza que no fundo o ser humano é ruim, que ultimamente as pessoas estão piores, mais violentas e intolerantes, menos pacientes e educadas, e que antigamente não era assim é assustador.

Penso muito cada vez que escuto esses pensamentos negativos, essa falta de fé nas pessoas, o desejo de vingança; e concluo a mesma coisa sempre: não, a humanidade não está pior. Na verdade estamos crescendo, evoluindo, nos tornando almas melhores. 

A diferença dos "tempos atuais" e do "no meu tempo..." é que nunca as informações correram tão rápido, pela primeira vez na história pode-se tirar um telefone do bolso e filmar as ações violentas e postar logo na internet para o mundo todo ver; cada vez mais pessoas emitem suas opiniões por meio das redes sociais; cada vez mais pessoas se reúnem em grupos para lutar pelas mais diversas causas; e justamente por vivermos em uma época em que a tecnologia atingiu um ponto incrível, a liberdade reina no espaço virtual de modo que aparece de tudo quando estamos online. Desde as coisas maravilhosas às coisas mais horríveis.  

Para mim não é que estamos nos tornando seres piores, desrespeitosos, agressivos. É só que agora temos maior acesso à informação - a todo tipo de informação - não só as selecionadas, filtradas e emitidas pela mídia.

Parem um pouco e pensem em como eram as coisas antes, o que a história nos mostra. Hoje não é mais aceito o trabalho escravo, o racismo, a xenofobia, a homofobia, o machismo, a sociedade patriarcal, a desigualdade social, a tortura, dentre tantas outras coisas consideradas normais há pouco tempo atrás. E toda vez que algo assim é divulgado, pode até aparecer os que defendem essas práticas horríveis, mas chove pessoas lutando contra isso.

Hoje acidentes e crimes horríveis acontecem, mas a solidariedade é tamanha que algumas vezes as organizações pedem para redirecionarmos nossa ajuda, pois aquela situação já teve o máximo que poderia ou que necessitava. 

Foi assim que aconteceu com a doação de água para Mariana depois do desastre do rompimento da barragem; foi assim que o Hemominas teve que pedir a suspensão da doação de medula porque o banco já estava lotado; foi assim que o hospital Mário Pena teve que pedir a suspensão das doações de cabelo porque as fábricas não suportavam mais a produção de tantas perucas; foi assim com as doações aos refugiados sírios; foi assim com os alemães cruzando as fronteiras e recolhendo imigrantes; foi assim com europeus abrindo suas casas aos refugiados; foi assim que uma brasileira foi "devolvida" por uma quadrilha de tráfico humano na Espanha; foi assim que diversos animais foram resgatados e tiveram um lar; foi assim que agressores foram identificados e punidos; foi assim que crianças perdidas foram encontradas; e foi assim em muitas outras situações.

É claro que nem tudo foi céu e estrelas, mas a proporção de pessoas indignadas com a "ruindade" que aparentemente toma conta do mundo, prova para mim que não estamos nos enfraquecendo como seres humanos, mas nos fortalecendo. Estamos evoluindo, cobrando mais uns dos outros, dando continuidade às lutas que começaram séculos atrás, ao invés de nos conformarmos com o que já alcançamos. 

A meu ver, a maior visibilidade das ações de hoje, tanto as mais cruéis, quanto as mais memoráveis, nos estimula a mudar o sistema. 

O que precisamos saber é que não temos que ter opinião sobre tudo, que não precisamos lutar contra tudo ao mesmo tempo. Cada um de nós tem um perfil, sabe mais de um assunto que de outro, e isso é que nos torna melhores. Temos muito o que aprender e melhorar ainda, e se todos lutássemos pelas mesmas coisas, ou não faríamos nada direito, ou só algumas lutas teriam representação.

O que quero dizer mesmo é: não desanimem meus amigos, não estamos nos tornando piores, estamos melhorando, crescendo, é só que nem todos crescem no mesmo tempo e na mesma proporção. O mundo não é homogêneo, as pessoas não são idênticas, e não há nada de errado nisso. Estamos juntos nesse mundão para ajudarmos uns aos outros, e não para julgarmos.

Não queiramos abraçar o mundo. Abracemos quem pudermos, e esses abraçarão quem puderem, e uma corrente será criada de forma que as próximas gerações terão mais informações boas do que ruins.  

Saibamos pagar o bem com o bem, e o mal com o melhor. Ninguém amadurece sozinho, ninguém é dono da verdade, não cabe a ninguém apontar o dedo para os erros e fraquezas dos outros. 

Isso não é ilusão. Isso é a realidade, é o que a História ensina. Gentileza gera gentileza. Amor gera amor. Respeito gera respeito. Dúvidas geram aprendizes eternos. Aprendizes eternos geram sábios. Sábios tornam o mundo um lugar melhor. O ser humano não é completamente ruim ou completamente bom, é uma constante evolução, e, sim, estamos desempenhando nosso papel muito bem face às nossas limitações individuais. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

COM A CULPA SÓ NOS RESTA SOBREVIVER, POIS O VIVER, ELA DEVORA

Há uns dias escrevi sobre o medo de sobreviver e o de viver. Agora quero escrever sobre um medo específico que me preocupa. Como ser eu mesma sem sentir culpa?

Desde pequena sempre tive medo de errar, de falhar, de passar vergonha, de ser "pior" que os outros, de ser fraca, de ser nervosa demais, de ser bruta demais, de ser do contra demais, de questionar mais que o permitido. Não que eu deixasse de fazer tudo isso por medo, mas deixei algumas vezes, e nas que fiz, me culpei por ser "assim".

É verdade que não tenho memorias de antes dos meus 12 anos. É tudo preto, como se eu tivesse nascido nessa idade. Não lembro de nada da minha infância até então, e por mais que eu me esforce, o máximo que consigo são uns poucos flashes e todos envolvem momentos que não fui a filha esperada, que falhei, que ouvi "por que você é assim? por que faz isso?" 

Não quero culpar meus pais por ser esse poço de culpa hoje. De forma alguma. Tudo que ouvi foi porque além de ser a mais velha, sou a filha mais "diferente", a mais difícil de lidar porque não sou como minha mãe, e lidar com o novo é muito difícil para ela, e para o meu pai também. 

Eu simplesmente nasci o oposto do que eles esperavam, e a cada ano que passava isso foi se confirmando, principalmente porque meus irmãos nasceram e desenvolveram suas personalidades como o esperado por eles. Daí as perguntas que tanto ouvi, tentei explicar e não consegui. Daí as brigas, os castigos, palavras que abriram feridas na alma de ambos os lados e que ainda não cicatrizaram. 

Hoje sei que tudo que ouvi deles foi uma tentativa de me entender, foram atos desesperados pelo medo do que eu poderia me acontecer. A raiva já amansou, mas o sentimento de culpa que eu desenvolvi ainda permanece, e é com ele que eu queria aprender a lidar. Ele veio de conflitos, de palavras, gritos, castigos, choros e da frustração de não "me encaixar" por mais que eu me esforçasse.

Não é que hoje eu não goste de mim, da minha "diferença" e do que ela me tornou. Com o tempo aprendi a gostar, mas isso me atormenta até hoje. Toda vez que preciso tomar uma decisão que vai de encontro ao que meus pais consideram "correto", "de respeito", "bonito de ser feito" sinto que eu sou a pior pessoa do mundo, que eu estou falhando e fico procurando motivos para pensar como eles. Motivos que por sinal quase nunca acho. 

O fato é que me tornei uma pessoa cheia de culpa por coisas que minha razão me diz que não há problema algum. Eu só queria aprender a lidar com a emoção, pois não deixo de fazer o que eu acho "correto" porque não coincide com o que me foi "ensinado", mas porque eu faço e sinto o peito pesado, tenho pesadelos horríveis sobre a opinião dos meus pais em relação à minha decisão, choro dias antes e depois, perco o sono, fico com raiva de mim mesma por ser assim e não saber melhorar.

E a única conclusão que consegui chegar até hoje é que ter controle sobre a nossa racionalidade não é nada perto de ter controle das nossas emoções, e não dá pra viver tendo um ou outro, só sobreviver, e isso não é o bastante para mim, quero viver.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

PORQUE FAZER FACULDADE NÃO É SINÔNIMO DE TER SUCESSO NA VIDA

Todo mundo age como se faculdade fosse o caminho para o sucesso, para um emprego bom, para você ter valor na sociedade. Te contar um segredo: não é m*** nenhuma. A gente estuda 4, 5 ou 6 anos no mínimo para sair de lá na maioria das vezes sem proposta de emprego, ou com uma proposta que não te permite nem pagar as próprias contas no fim do mês. 

Aí você me diz: "Ah, mas quem leva a faculdade a sério não passa por isso, quem estuda de verdade não vive isso." Aí eu te conto um segredo: "Eu fiz isso, ah como fiz, meus colegas, amigos e família, assim como professores são prova viva disso. Assim, como outros colegas também fizeram, e sabe onde estamos hoje no nosso caminho para o "sucesso"? No mesmo ponto de onde começamos a estudar quando entramos na faculdade. É isso mesmo!"

Aí você me diz: "Nossa mas no que você formou?" E eu te respondo: "Só pra constar não faz diferença o curso. Tenho amigos das áreas mais diversas que passam pela mesma coisa, mas fiz direito."  Vem aquele olhar de desprezo e a chuva de perguntas: "mas você não tirou OAB? Então advoga ué" ou "É só você estudar pra um concurso de juiz, promotor e você fica rica".

Pronto né! Simples assim. Só que todo mundo esquece que nem todos queremos um concurso, que entrar em um escritório significa trabalhar mais de 8hs por dia, sob pressão, cada semana em um local e ganhando muitas vezes menos que pessoas que não fizeram faculdade ganham.

Não me entendam errado. Ao contrário da maioria que acha um absurdo uma empregada doméstica, uma babá, um cabeleireiro, um pedreiro, e outras profissões que na cabeça das pessoas não requerem "nem um 1/3 do tempo de estudo que eu tenho" ganhar o mesmo tanto ou mais que "eu que estudei horrores para ser alguém na vida", eu não vejo problema algum nisso. Fico muito feliz por sinal por eles. Até porque a sociedade requer todos os tipo de profissão, e não só as com diploma, e porque não acho que é o tempo de estudo que deve ser a medida para o que você ganha, mas sim sua capacidade de fazer o que escolheu. 

O absurdo pra mim é a lógica do mercado que te diz "faça faculdade e você ganhará bem, viverá bem, e não será 'escravo de ninguém'". Aí quando a gente forma e vai tentar um emprego vem: "Tem experiência?" "Hum, não. Acabei de formar." (não serve, tinha que ter ao menos 2 anos de experiência). "Fala quantas línguas?" "Duas: inglês e espanhol (profissional caro, bastava o inglês, OU todo mundo fala isso, devia ser alemão, francês). "Quanto você gostaria de ganhar?"  "Uns 7 mil." (Tá louca?  Maluca? O inicial máximo aqui é R$2.500) "Casada?" "Não". "Pretende?" "Sim." (Já era, casamento é sinônimo de menos eficiência e dedicação) "Quantos filhos?" (tanto faz sua resposta aqui: se você tem já é ponto negativo, se não presumem que você terá: gastos para a empresa) "Por que você escolheu nossa empresa?" "Porque ela expressa meus valores e blá, blá, blá " (nessa eles nem ouvem sua resposta, porque já sabem que é o que você fala pra todas, assim todo mundo, porque a verdade não é elegante "porque estou atirando pra tudo quanto é lado porque ninguém me quer") "Quais suas três maiores qualidades e defeitos?" "Paciência demais, capacidade de liderança, eficiência; e perfeccionismo, não sei lidar com injustiça, muito exigente comigo mesmo" (ninguém presta atenção, sabe que é tudo pesquisado no google e decorado) 

Assim seguem as perguntas hipócritas e as respostas mais ainda. Todo mundo sabe quais perguntas virão e como respondê-las. No fim, a entrevista não significa nada. Ela é feita para te eliminar, não para te avaliar, e o que sempre te contaram é só mais uma "História da Carochinha".
 
A verdade é que cada dia é exigida maior qualificação, maior "disponibilidade para a empresa" e em troca um salário menor. A gente tem que ser equilibrista para ficar na corda bamba para conseguir um emprego e ganhar uma porcaria que nem sequer daria para nos sustentar.

Se somos qualificados demais, somos caro demais. Se somos qualificados de menos, não serve. Se somos mulheres, já perdemos pra qualquer homem que estiver querendo a vaga, porque ele "não engravida, nem cuida das crianças." Se processamos nosso empregador anterior porque ele não cumpriu a legislação trabalhista em relação aos nosso direitos, já era. Ninguém quer alguém que possa processá-los, mesmo que só estivéssemos buscando algo nosso.

Enquanto isso, quem não tem família, amigos, conhecidos no ramo que escolheu fica aqui se qualificando loucamente, se desdobrando para conseguir um emprego com um salário no mínimo respeitoso, e se sentindo cada vez mais um "ET" na sociedade. 

Então minha conclusão de hoje é muito simples: o erro está no sistema, na ideia falha de meritocracia. 

E a quem se encontra na mesma posição que eu peço uma coisa: Vamos agir para mudar o sistema ao invés de perpetuá-lo. Vamos nos qualificar para que fazer faculdade realmente signifique algo. Para que as pessoas sejam selecionadas por sua capacidade, não só por custos, números e infinitos processos seletivos que todo mundo já sabe como funciona. Para que de fato possamos ter todos a mesma chance conforme nossa idade, nosso perfil profissional, e nossas habilidades e capacidade de aprendizagem no que será demandado de nós. Para que não precisemos ouvir a próxima geração reclamando que é um absurdo quem estuda menos ou nada, ganhar mais que quem estuda anos. Para que a próxima geração não veja nisso um problema, mas entenda que precisamos de todo tipo de profissão, e que nenhuma vale mais que a outra.  Para que entendam que os salários devem ser o mais equilibrado possível para que possamos viver em maior igualdade, e não em um mundo que 1% da população possui 99% da riqueza.
 

sábado, 23 de janeiro de 2016

A HORA DA VERDADE: ANSIEDADE, PÂNICO E DEPRESSÃO: LUTAR OU ME ENTREGAR?

Marquei uma consulta com meu clínico geral. Mais que médico ele é meu amigo e confidente. O único médico que eu tinha certeza que me diria se eu tinha algo ou não. O único que tem coragem de me dizer o que preciso ouvir mesmo quando não quero, que sabe exatamente o que falar quando preciso, que me conhece há anos e sabe não só como meu corpo funciona, mas também minha mente e coração. 

Quando entrei no consultório aqueles olhos azuis, que tenho certeza que podem ver minha alma, me encararam por um segundo antes do abraço acolhedor. Contei a ele o que tinha me levado a procurá-lo. Ele conversou mais de hora comigo, me pediu exames para saber se havia algo físico ou se era algo emocional. 

No dia que retornei com os exames ele me explicou que não era algo no meu corpo, mas na minha mente. Ele disse que tudo o que eu vinha passando desde 2013 estava pesando... Era muita coisa para uma pessoa só, e que a minha mania de querer cuidar de todos e salvar todos me manteve firme enquanto fui necessária para os outros, mas o dia que pude respirar de novo eu desabei. 

Era princípio de 2015 isso. Mas eu já tratava por transtorno de ansiedade e pânico desde 2013. Os remédios me ajudavam a controlar as crises. O suor frio, a dor no estomago, na barriga, no peito, nas costas, a tonteira, a sensação de desmaio, a falta de ar, o tremor, a variação de pressão e a sensação de que ia morrer foram diminuindo com o tratamento. Começaram a durar menos tempo, comecei a conseguir controlar o que estava acontecendo, e quando achei que tinha superado, que estava bem, passei por tudo o que contei ontem.

Morrendo de vergonha olhei pra ele e perguntei: "Por que eu? Por que eu sempre sou a fraca? Por que eu tenho que preocupar todo mundo com tudo o que estamos passando? Por que eu não podia ser normal como o resto? Por que eu não deixava de existir de uma vez? Por que não podia por a cabeça no travesseiro e nunca mais acordar? Por que o mundo não podia acabar naquele instante?" 

Com um sorriso no rosto, os olhos cheios de carinho e sabedoria ele me respondeu; "Porque cada um de nós é único, e reage de uma forma diante das dificuldades que passamos. Você não é fraca, não dá trabalho extra para os outros. Na luta pela sobrevivência de lidar com tanta coisa difícil e dolorosa ao mesmo tempo sua mente buscou uma saída, não quer dizer que você não possa assumir o controle e melhorar, mas aceite ajuda para tanto."

Foi quando as doses dos meus remédios começaram a aumentar, e passei a tomar mais de um. Eu havia chegado ao fundo do poço, e o que me restava naquele momento era subir de volta. E foi o que comecei a fazer. Aceitei ajuda da minha família, do meu namorado e dos amigos que amam. 

Quando me senti forte o bastante segui o conselho do meu pai e procurei uma psicologa, pois sabia que os remédios só anestesiavam a dor, mas não cuidavam da causa. Isso tem 8 meses. Continuo medicada, continuo na terapia, mas há 6 meses já não desejo a morte, nem que o mundo acabe. Raros são os dias que me acho um peso, e a empatia volta cada dia mais forte. 

Não estou curada, mas acredito que um dia posso ficar. Sei que a caminhada é longa, dura, e lenta, mas já não me sinto mais sozinha, inútil, descartável. Quando fraquejo minha mãe segura uma mão e minha irmã a outra. Quando caio, meu namorado me carrega. Quando tropeço, meus amigos me ajudam a tratar a ferida até ficar só a cicatriz. 

Eu tive sorte. A ansiedade, o stress, o pânico e a depressão me derrubaram, me tornaram apática em relação a tudo, me fizeram sentir descartável, me fizeram abrir pequenas feridas para trocar a dor emocional pela física, me fizeram começar a morder com tanta força que cheguei a paralisar o lado esquerdo do corpo por uma semana. Me fizeram chegar na janela e me perguntar "e se?", quase me fizeram atravessar na frente de um ônibus, me fizeram desistir de comer, de tomar banho e torcer para a vida acabar já que eu não servia nem pra pôr um fim nela. Mas almas boas interferiram por mim, espíritos elevados lutaram por mim, papai do céu me abençoou, o amor de mãe, de irmã, de namorado e de amigos me deu forças e vem me reerguendo a cada dia. 

Por hoje chega, já falei muito. Amanhã conto como a terapia também tem um papel fundamental na minha recuperação, e porque mesmo sem gostar, eu persisto nela.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

CANSAÇO EXCESSIVO, CONFUSÃO (SENTI)MENTAL, INDIFERENÇA A VIDA, CULPA

Hoje quero começar a escrever sobre uma doença que enfrento há pouco mais de um ano. Por muito tempo tive vergonha de falar dela, mas agora falar me ajuda.

No início achava que eu não tinha nada, só cansaço acumulado. Dormia e esperava o "cansaço" ir embora. Com o tempo percebi que não era isso. 

Passei a acreditar que eram meus hormônios bagunçados, por isso que eu chorava dias e noites sem saber porque e continuava a dormir tanto. 

Depois de um tempo comecei a sentir um vazio no peito, um buraco que me engolia, que me sugava. Seguia minha rotina no automático, não pensava, criticava, nem sentia; simplesmente vivia em uma indiferença sem fim. 

Quando as pessoas começaram a perceber algo errado fui me afastando delas, mantive de cia só meu namorado, que não entendia nada das minhas mudanças, vivia preocupado, fazendo de tudo pra me ver sorrir, mas eu não conseguia responder como antes. 

Eu olhava pra ele e me perguntava por que eu? O que ele vê em mim? E buscava desesperadamente uma razão, mas não achava. Com isso vinham as horas de silêncio, os choros, olhares vazios, e, mesmo assim, ele não desistia de mim, lutava por mim todos os dias. 

De repente passei uma semana sem falar com ninguém. Minha mãe não entendia nada. Me olhava com aquela cara de desespero de quem não sabia o que fazer. Meu amor me ligava dizia bom dia, eu te amo, e desligava. A noite ligava dizia boa noite, eu te amo e desligava. Nunca me pressionou para contar o que estava acontecendo. Ele sentia que tinha algo muito errado, mas não brigou, não apelou, nem cansou da situação. Sofreu calado porque apesar de não entender nada, sabia que eu precisava daquilo. A semana passou e finalmente ele me perguntou o que havia acontecido, e a minha única resposta foi: não sei. 

Depois passei para a fase de culpa. Comecei a pensar no tanto que eu era fraca, pois eu tinha tudo. Uma família boa, ótimos amigos, um namorado que movia céus e terra por mim, então passei a me questionar das razões de eu estar insatisfeita com a vida. Cheguei à conclusão que era egoísmo, egocentrismo, ingratidão. Foi uma fase que passou da dor, para o ódio em relação a mim mesma e chegou ao ponto de eu questionar porque ainda estava viva. Desejava a cada dia que seguia deixar de existir.

Parei de sair de casa durante a semana, e no final de semana só queria ir pra casa do meu namorado deitar e ver TV. Na verdade só queria deitar mesmo. A TV não me interessava, assim como mais nada. Só queria abraçá-lo, sentir o cheirinho de tudo bem que vem dele, porque ele renovava minha  vontade de viver, mas nem conversar direito com ele eu era capaz. 

Foi nessa época que depois de dormir 17hs um dia e minha irmã me perguntar se eu estava doente, se queria ir ao hospital, que percebi que tinha algo errado. Foi quando notei que vinha passando meu último mês deitada na minha cama por 17hs ou mais por dia, que tinha dia que eu não comia - não tinha fome nem vontade -, não tomava banho com a mesma frequência mais, não lia mais, só dormia, e quando acordava não era capaz de mudar nem de posição na cama.

Todas essas fases duraram meses, muitos meses, mas quando meu pai me chamou e disse "filha tem algo errado com você, procura ajuda, que do jeito que tá não dá mais, procura uma psicologa antes que seja tarde demais", nossa foi um tapa na cara. Afinal se ele tinha notado, realmente eu estava perdendo o controle da situação.

No dia seguinte entendi que eu tinha chegado num ponto que ou eu desistia de mim de vez, ou eu lutava por mim, e que pra isso eu precisava de um médico para me dizer o que tinha de errado. Eu realmente não entendia, ainda achava que era fraqueza de espírito, coisa de menina mimada, ingrata, mas resolvi perguntar aos especialistas, afinal sozinha com minhas suposições eu não estava chegando a lugar algum, não conseguia nem criar vergonha na cara para parar de lamentar e de fazer os a minha volta pararem de sofrer.

É eu tinha algo, ainda tenho por sinal. E provavelmente você já sabe o que é. Mas a continuação fica para amanhã.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

NÃO É PORQUE A CIÊNCIA AINDA NÃO EXPLICA QUE NÃO É REAL

Tem hora que certas coisas acontecem com a gente que não conseguimos explicar, e na nossa ânsia de dar um nome, um significado e um conceito para tudo, buscamos de todas as formas entender o que aconteceu. O problema é quando a gente falha. 

Ah, aí sim a coisa complica, afinal somos ensinados a acreditar no que pode ser provado pela ciência. Muitas vezes duvidamos de nossos olhos, ouvidos e sentidos porque não somo capazes de achar uma explicação lógica para o que vimos, escutamos ou sentimos. Alguns céticos dirão que não passou do nosso cérebro nos enganando, pregando peças.

O fato é que alguns poucos não tão céticos assim, com o tempo aprendem a confiar em seus instintos. Porém, para chegarmos a esse ponto é necessário desenvolver nossa autoconfiança, autocrítica, e autonomia em relação aos julgamentos que receberemos quando decidirmos trilhar nosso caminho. 

Não estou falando aqui de religião, mas sim de fé em nós mesmos. Nas nossas capacidades que não podemos entender, ver ou explicar, mas que sabemos que estão em nós. 

Acredito que todos nós já passamos por um momento na vida que chamamos de coincidência, destino, e até mesmo de "hora certa, no lugar certo" ou "hora errada, no lugar errado". Eu já não acredito nessas coisas mais. A medida que certas coisas começaram a acontecer fui aperfeiçoando minha capacidade de distinguir o que é real e não posso explicar, do que de fato é irreal, mera ilusão, fruto da imaginação, e até mesmo de enganação própria ou de terceiros. 

Não é fácil, muitas vezes é doloroso, mas eu sigo meu instinto cada vez mais porque desde que comecei a respeitar "minha energia" vivo mais do que sobrevivo. Não entendam errado, com isso não quero dizer que encontrei a felicidade plena, a paz,  porque não é verdade. No entanto, posso dizer que sinto com mais intensidade tudo a minha volta, vou aprendendo a respeitar mais o outro, vou aprendendo a ser melhor para o outro, 

Aceitar que essa parte de mim existe - ao invés de ignorá-la - e vivê-la com todas as suas consequências me ajuda a perceber que não existe o eu e o você, mas o nós, um todo completamente interligado que influencia cada parte por meio de uma cadeia de ações, e isso me estimula a procurar identificar e entender as ações boas para poder praticá-las, mas sobre elas já falei uns dias atrás. Hoje paro por aqui.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

MATERNIDADE NÃO É PARA TODAS, E NÃO HÁ PROBLEMA ALGUM NISSO

Ser mãe é a forma mais pura de amar. Não ser mãe é não conhecer o maior amor do mundo. Quantas vezes já ouvi isso? Sei lá, perdi a conta há tempos.

A minha realidade é simples: não quero ser mãe. É isso mesmo, Você leu certo. Não tenho problema algum com minha decisão. Mas aparentemente eu incomodo milhares de pessoas com isso. 

Alguns me respeitam, mas dizem no fim "ah, é porque você é muito nova. Daqui uns anos isso muda." Detalhe: tenho 26 anos. Outros me olham e perguntam:"Mas e seu namorado? Não quer? Você vai fazer isso com ele?" Aí eu respiro fundo, engulo todos os palavrões, e respondo com um sorriso falso "ele entende", quando na verdade a vontade é dizer "isso é entre eu e ele, não te interessa! E de onde você tirou a ideia de que eu deveria fazer porque ele quer?"

O fato é simples: vivemos em uma sociedade patriarcal, e até hoje o papel fundamental da mulher é ser mãe. Escolher não ter uma criança é tido como algo anormal que precisa de tratamento médico e psicológico, pois não existe isso de "não quero, não é da minha natureza" porque "é da natureza de toda mulher ser mãe". Só que ninguém entende que isso não é verdade nem do ponto de vista biológico. Quantas mulheres são estereis? A diferença é que quando é um fator físico que nos impede de ter filhos o mundo entende, morre de pena; mas quando é porque a gente simplesmente sente que não veio ao mundo para isso, é doença ou distúrbio psicológico. 

Eu nunca quis ter filhos e pra mim minha resposta é o suficiente: "não é de mim, maternidade não está em mim, não faz parte de quem sou, da minha natureza". O problema é que não basta para o resto. Quantas mulheres sofrem por não quererem ter filhos? Quantas se acham de fato anormais por isso? Quantas nunca nem chegaram a pensar se queriam ou não ser mãe, só se tornaram mãe porque é o "curso natural da vida"? 

Me impressiona a incapacidade das pessoas de verem a mulher como uma alma dotada de escolhas, sentimentos, quereres, frustrações e dores, e a capacidade dessas mesmas pessoas de nos reduzirem a um objeto que tem um papel a desempenhar, assim como uma impressora, um grampeador ou uma geladeira. 

Me assombra as pessoas não pensarem na criança que poderia vir a nascer de uma mãe que não a quis, que o fez para "cumprir seu papel". Afinal, ser mãe é assumir uma responsabilidade por outra alma, não é uma profissão ou uma obrigação, é uma vocação, e nem todas nós a possuímos. Ser mãe é alimentar o corpo e a alma. Quantas crianças são abandonadas em lixeiras, igrejas, residências, pois as mães não quiseram tê-las? Quantas vivem com uma mãe ausente, que as veste, alimenta, educa, mas não cuidam da alma, pois se tornaram mães por obrigação? 

Já sofri muito por isso. Achei que tinha algo errado, Pedi ajuda à psicologa, a Deus e a minha própria mãe. E essa sim nasceu pra ser mãe. Na sua imensa sabedoria, capacidade de conforto e no seu amor infinito ela me disse: "não sei como não é querer ter filhos Fernanda, eu sempre quis, mas isso não te torna pior que ninguém, nem doente, só mostra que você é capaz de reconhecer quem é, e talvez um dia isso mude, talvez não. A verdade é que não tem problema."

E do conselho da minha mãe tirei uma conclusão sobre todas nós que optamos por ser tias, amigas, primas, irmãs, mas não mães: Somos inferiores, loucas, desequilibradas por isso? Não, somos fortes demais. Mesmo diante da pressão que sofremos, temos consciência do que a maternidade envolve e não destruímos uma vida para cumprir "nosso papel no mundo". 

sábado, 16 de janeiro de 2016

O FUTURO A DEUS PERTENCE. NÃO SOFRA POR ANTECEDÊNCIA. MAS COMO?

No início do dia de hoje escrevi sobre nossa incapacidade de viver o hoje tendo em vista o passado. A intenção era falar sobre o futuro também, mas com meus pensamentos desenfreados percebi que era melhor dividir em dois textos, já estava grande demais. Por isso as frases que serão meu ponto de partida agora são: "o futuro a Deus pertence" "não sofra por antecedência".

A pergunta aqui é se repete: O que está por trás dessas frases? Como conseguiremos deixar o amanhã por lá? O problema também não muda: a mesma sociedade que nos exige tanto ter em mente tanta coisa do passado, nos molda para termos um futuro todo planejado, e exige que vivamos o hoje. Haja hipocrisia. 

No post anterior está nas entrelinhas nossa preocupação quanto ao futuro. Na lógica: ensino médio, depois faculdade, depois emprego, depois sucesso, depois aposentar.

Agora quero usar de exemplo as perguntas dos encontros familiares: "Quando você forma?" "Vai fazer o que quando formar?" " Em qual área você vai trabalhar?" "Onde você vai morar quando sair de casa?" "Ou vai ficar com seus pais pra sempre?" "Não vai namorar ninguém não? Seu tempo está passando. Hoje é quem eu quero, amanhã é quem me quer" "E o namoro? Casa quando?" "E o primeiro filho? é pra quando?"

Só falta perguntar "E a morte? É pra quando?". Mas essa pergunta ninguém faz! Justamente a única que podemos responder honestamente sem sermos julgados: "Pra quando ela vier"! Ninguém gosta de pensar nela. É pesado né? Mas não é mais pesado do que viver fugindo dela. 

Não quero ser radical. Sei que temos que ter um mínimo de planejamento para sobrevivermos nesse modelo social que nos devora. Só quero que aprendamos a viver nele, e não só sobreviver.

Visto que nascemos com uma certeza na vida: a de que vamos morrer, e que não sabemos quando, por que gastamos tanto tempo planejando o amanhã que pode nem acontecer? Que tipo de sociedade é essa que construímos? De onde vem o horror trazido pela morte? 

Afinal, construímos esse modelo de sociedade pelo desespero de poder controlar o máximo que pudermos, já que não podemos controlar a morte? Ou, o modelo social que construímos nos levou a ter esse pavor de não podermos controlar a nossa única certeza - a morte? A resposta tanto faz. O fato é que somos seres planejadores, controladores, obcecados com o nosso futuro. E como lidar com isso? 

Ter em mente que controlamos o futuro é mera ilusão, é o primeiro passo. O segundo é aceitar que a morte é nossa companheira diária, e não a grande vilã. Ainda não sei quais são os próximos, estou lutando para dar esses dois ainda! Só sei que temos que começar por algum lugar.

A questão é que passamos tanto tempo preocupados com o que teremos ou não no amanhã, esquecendo o que temos hoje, que não vivemos o agora. Sobrevivemos em busca do que virá depois. 

Então quando nos disserem as frases lá do primeiro parágrafo e pensarmos: "É tá certo. Deixa pra lá, quando chegar a hora eu vejo o que faço", e quando falharmos em agir assim, saibamos que não é nossa culpa. Crescemos em um mundo que valoriza o ontem e o amanhã. 

Mas nessas horas lembremos do detalhe mais importante: somos nós que construímos a sociedade em que vivemos. Cabe a cada um de nós ir trabalhando aos poucos para mudar isso. Como? Comecemos por nós mesmos. Seguindo os passos acima perguntemos às pessoas como elas estão hoje. Não sobre o que farão ou serão amanhã. Todo o dia ao levantar saibamos que a morte está caminhando lado a lado com a gente, e que quando ela nos chamar, tudo o que esperávamos acontecer, tudo o que planejamos, não interessa mais. 

PASSADO É PARA FICAR POR LÁ, MAS COMO?

Sempre escutamos que passado é passado, que é pra gente superar, seguir em frente, viver o hoje. De fato nos focamos muito no que já aconteceu e esquecemos do agora. Mas por que será? O que ninguém nos conta é o que está por trás desse modo de vida e o que nos forma assim, e é isso que vou tentar expor com base na minha parca sobrevivência de cada dia.

O fato é que o passado a gente carrega todos os dias, pois hoje somos frutos do que vivemos ontem. Tudo o que vivemos nos molda a cada instante. Isso vale para nossa vida profissional, social, amorosa, basicamente para tudo. Aí a primeira pergunta que nos faço é: que passado é esse que tem que ficar para trás? A partir de quando? Do ontem? Da semana passada? Do mês passado? Do ano passado? Do dia que algo ruim aconteceu? 

Para mostrar como o passado é rotina e como somos ensinados a carregá-lo diariamente vou pegar o mais óbvio e o mais consome nosso tempo: nossa vida acadêmica e profissional.

Como vamos deixar pra trás os anos de ensino médio? Precisamos deles para passar no maldito vestibular, que não mede conhecimento nenhum, mas na hora de fazê-lo, naquele momento, temos que ter em mente no mínimo o que estudamos nos últimos três anos! Isso considerando que não iremos precisar de cursinhos. Aí a gente passa! Yes! Sucesso! 

Vem a faculdade e percebemos que precisamos ter em mente não só os últimos 3, mas os últimos 4, 5 ou 6 anos, dependendo do curso. A cada período que passamos escutamos: "mas vocês já esqueceram isso? Isso foi do semestre passado! E quando formar? Vão saber é nada". Mas uma hora nos formamos. Yes! Sucesso! 

Agora vou viver o hoje, uhum, vai sim trouxa. Vai ficar é repetindo "saudade da facu, melhor época da minha vida". "Ai se eu tivesse levado ela a sério, hoje ia ser tão mais fácil". O que vamos fazer é nos assombrar sobre o que fizemos e deixamos de fazer que poderia nos ajudar no hoje. Vamos passar por várias entrevistas, e a cada nova que surgir a primeira coisa que virá em mente: "o que fiz de errado na última e o que fiz certo?" A gente se prepara pensando no que já tentou e chega na hora vem a maldita pergunta "E qual a sua experiência?" Pronto, já era, rodamos. 99% das vagas vão nos exigir experiência prévia, mas como é nosso primeiro emprego engolimos seco e repetimos "bom, tirando o estágio, não tenho experiência". A depressão vem, junto com ela a ansiedade, até que finalmente conseguimos nosso primeiro emprego! Yes! Sucesso! 

O tempo passa e somos demitidos ou resolvemos pedir demissão. Ao procurar o próximo emprego nos deparamos com a pergunta crucial: "E o seu emprego anterior, o que aconteceu?" E assim vai até nos aposentarmos. 

Chega o grande momento! Aposentados! Yes! Sucesso! Cumprimos nossas obrigações e agora teremos nossa recompensa. Aí nesse instante percebemos que passamos 30, 35 anos ou mais e vivemos amarrados no passado planejando o futuro. Não sabemos viver o hoje. 

Nosso modelo de sociedade não nos permite esse luxo. E as poucas vezes que tivemos coragem de viver o hoje, foi com aquele sentimento de culpa, de que estávamos fazendo algo errado, e assim a vida passa e nós ficamos.

Agora você olha e me diz: nossa você que não entendeu nada! O ditado não é sobre isso, é sobre o que te fez sofrer, o que deu errado. Mas eu digo: eu sei, mas como que esperam que a gente consiga superar tais coisas, deixando-as pra trás se somos condicionados a vida toda a lembrar do que já fizemos para termos um amanhã? 

É muito fácil dizer pra deixar o passado de lado. Quero ver é a gente conseguir fazer. Apesar de sermos racionais e conseguimos entender que aquilo deve ficar no passado, mas isso não, não somos seres feitos meramente da razão. Somos emoção, e controlar a emoção é muito mais difícil do que usar a razão.

Então não nos culpemos pelo passado que nos persegue. Fomos feitos para carregá-lo conosco, até porque somos avaliados pelo sucesso profissional, acadêmico, pela capacidade de superação dos obstáculos, mas não pela capacidade de viver o hoje.

Por outro lado, não deixemos de tentar. Tenhamos em mente que somos nós quem construímos o modelo de sociedade, então cabe a nós mudá-lo, e a partir do momento que temos isso em mente, o primeiro passo para a nossa liberdade foi dado. Não obstante, não devemos nos iludir, a verdade é que nos libertarmos disso demanda anos de prática. Até lá vamos sobrevivendo condicionados pelo passado para termos o futuro.