terça-feira, 8 de novembro de 2016

O DIA QUE O SER HUMANO ME DECEPCIONOU

Todos os dias o ser humano me choca, às vezes me confunde, muitas vezes me impressiona, outras me assusta. É um misto de emoções e sentimentos  a cada minuto. Mas hoje, hoje foi diferente. Hoje o ser humano me decepcionou. 

Um médico ao escolher olhar para seu paciente como um objeto de pesquisa, uma cobaia, uma possibilidade de vitória, ao invés de olhar pra ele como uma pessoa, me decepcionou. Pode parecer contraditório pra quem lê, mas hoje ao não saber quando parar, um ser humano me decepcionou.

Um médico que luta pela vida de seu paciente muitas vezes é tudo o que queremos, precisamos, esperamos. Mas não hoje, hoje era preciso um médico que fosse capaz de dizer a verdade, de olhar nos olhos do seu paciente e dizer: vive o tempo que lhe resta, viaje, ame, coma, sorria, torça pelo seu time, comece a se despedir, a medicina ocidental falhou com você. Sinto muito, mas ela não deu conta do recado.

Ao invés disso o médico olha pro paciente e diz: tira seu visto logo, vou me reunir com outros médicos, tem um medicamento fora, deixa sua viagem com sua esposa e adianta os documentos para um tratamento fora.

O que eu queria perguntar a esse médico é: você tem noção de como seu conselho foi cruel? Você tem noção do que está dentro dessa sua pergunta? Você entende que você está pedindo a seu paciente que pegue aquela viagem que ele sonha em fazer desde a época em que adoeceu e que foi sendo adiada pra quando ele melhorasse por conta de suas vãs promessas, para que jogue-a no lixo e vá atrás de mais uma esperança vazia? Você entende que você está pedindo a ele que troque uma viagem de felicidade e amor por uma vazia? Você entende que você está aconselhando a ele que corra atras de mais tempo, e que o tempo que ele supostamente vai ganhar vai ser gasto em busca de mais tempo? Você não vê como isso é paradoxal? Como isso é um ciclo? Ou você não entende?

Se você entende, Dr. o senhor é cruel. Se não entende, é egoísta. E de qualquer um dos jeitos, você é incapaz de enxergar a dor do outro, de reconhecer que não foi a primeira nem última vez que a medicina falhou e falhará, que ela decepcionou. 

Até que ponto vai sua necessidade de acreditar que isso é o melhor pra ele? Ou será que você pensa no que é melhor pra você? Será que é mais fácil, menos dolorido, o senhor decepcionar outro ser humano, a ser decepcionado pela medicina?

Sua preocupação se resume a tempo, quantidade de dias vividos, a uma busca inconsequente por tempo, por esperança, eu só queria deixar um recado para o senhor, antes a medicina me decepcionando, do que um ser humano me decepcionando. Dói mais.