segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

PORQUE FAZER FACULDADE NÃO É SINÔNIMO DE TER SUCESSO NA VIDA

Todo mundo age como se faculdade fosse o caminho para o sucesso, para um emprego bom, para você ter valor na sociedade. Te contar um segredo: não é m*** nenhuma. A gente estuda 4, 5 ou 6 anos no mínimo para sair de lá na maioria das vezes sem proposta de emprego, ou com uma proposta que não te permite nem pagar as próprias contas no fim do mês. 

Aí você me diz: "Ah, mas quem leva a faculdade a sério não passa por isso, quem estuda de verdade não vive isso." Aí eu te conto um segredo: "Eu fiz isso, ah como fiz, meus colegas, amigos e família, assim como professores são prova viva disso. Assim, como outros colegas também fizeram, e sabe onde estamos hoje no nosso caminho para o "sucesso"? No mesmo ponto de onde começamos a estudar quando entramos na faculdade. É isso mesmo!"

Aí você me diz: "Nossa mas no que você formou?" E eu te respondo: "Só pra constar não faz diferença o curso. Tenho amigos das áreas mais diversas que passam pela mesma coisa, mas fiz direito."  Vem aquele olhar de desprezo e a chuva de perguntas: "mas você não tirou OAB? Então advoga ué" ou "É só você estudar pra um concurso de juiz, promotor e você fica rica".

Pronto né! Simples assim. Só que todo mundo esquece que nem todos queremos um concurso, que entrar em um escritório significa trabalhar mais de 8hs por dia, sob pressão, cada semana em um local e ganhando muitas vezes menos que pessoas que não fizeram faculdade ganham.

Não me entendam errado. Ao contrário da maioria que acha um absurdo uma empregada doméstica, uma babá, um cabeleireiro, um pedreiro, e outras profissões que na cabeça das pessoas não requerem "nem um 1/3 do tempo de estudo que eu tenho" ganhar o mesmo tanto ou mais que "eu que estudei horrores para ser alguém na vida", eu não vejo problema algum nisso. Fico muito feliz por sinal por eles. Até porque a sociedade requer todos os tipo de profissão, e não só as com diploma, e porque não acho que é o tempo de estudo que deve ser a medida para o que você ganha, mas sim sua capacidade de fazer o que escolheu. 

O absurdo pra mim é a lógica do mercado que te diz "faça faculdade e você ganhará bem, viverá bem, e não será 'escravo de ninguém'". Aí quando a gente forma e vai tentar um emprego vem: "Tem experiência?" "Hum, não. Acabei de formar." (não serve, tinha que ter ao menos 2 anos de experiência). "Fala quantas línguas?" "Duas: inglês e espanhol (profissional caro, bastava o inglês, OU todo mundo fala isso, devia ser alemão, francês). "Quanto você gostaria de ganhar?"  "Uns 7 mil." (Tá louca?  Maluca? O inicial máximo aqui é R$2.500) "Casada?" "Não". "Pretende?" "Sim." (Já era, casamento é sinônimo de menos eficiência e dedicação) "Quantos filhos?" (tanto faz sua resposta aqui: se você tem já é ponto negativo, se não presumem que você terá: gastos para a empresa) "Por que você escolheu nossa empresa?" "Porque ela expressa meus valores e blá, blá, blá " (nessa eles nem ouvem sua resposta, porque já sabem que é o que você fala pra todas, assim todo mundo, porque a verdade não é elegante "porque estou atirando pra tudo quanto é lado porque ninguém me quer") "Quais suas três maiores qualidades e defeitos?" "Paciência demais, capacidade de liderança, eficiência; e perfeccionismo, não sei lidar com injustiça, muito exigente comigo mesmo" (ninguém presta atenção, sabe que é tudo pesquisado no google e decorado) 

Assim seguem as perguntas hipócritas e as respostas mais ainda. Todo mundo sabe quais perguntas virão e como respondê-las. No fim, a entrevista não significa nada. Ela é feita para te eliminar, não para te avaliar, e o que sempre te contaram é só mais uma "História da Carochinha".
 
A verdade é que cada dia é exigida maior qualificação, maior "disponibilidade para a empresa" e em troca um salário menor. A gente tem que ser equilibrista para ficar na corda bamba para conseguir um emprego e ganhar uma porcaria que nem sequer daria para nos sustentar.

Se somos qualificados demais, somos caro demais. Se somos qualificados de menos, não serve. Se somos mulheres, já perdemos pra qualquer homem que estiver querendo a vaga, porque ele "não engravida, nem cuida das crianças." Se processamos nosso empregador anterior porque ele não cumpriu a legislação trabalhista em relação aos nosso direitos, já era. Ninguém quer alguém que possa processá-los, mesmo que só estivéssemos buscando algo nosso.

Enquanto isso, quem não tem família, amigos, conhecidos no ramo que escolheu fica aqui se qualificando loucamente, se desdobrando para conseguir um emprego com um salário no mínimo respeitoso, e se sentindo cada vez mais um "ET" na sociedade. 

Então minha conclusão de hoje é muito simples: o erro está no sistema, na ideia falha de meritocracia. 

E a quem se encontra na mesma posição que eu peço uma coisa: Vamos agir para mudar o sistema ao invés de perpetuá-lo. Vamos nos qualificar para que fazer faculdade realmente signifique algo. Para que as pessoas sejam selecionadas por sua capacidade, não só por custos, números e infinitos processos seletivos que todo mundo já sabe como funciona. Para que de fato possamos ter todos a mesma chance conforme nossa idade, nosso perfil profissional, e nossas habilidades e capacidade de aprendizagem no que será demandado de nós. Para que não precisemos ouvir a próxima geração reclamando que é um absurdo quem estuda menos ou nada, ganhar mais que quem estuda anos. Para que a próxima geração não veja nisso um problema, mas entenda que precisamos de todo tipo de profissão, e que nenhuma vale mais que a outra.  Para que entendam que os salários devem ser o mais equilibrado possível para que possamos viver em maior igualdade, e não em um mundo que 1% da população possui 99% da riqueza.