domingo, 28 de fevereiro de 2016

EU FALHEI HOJE, MAS EU TAMBÉM VENCI

Não é raro passar pela minha cabeça que eu falhei mais um dia. Falhei com o que o sistema espera de mim, falhei com o que eu espero de mim e falhei com o que a sociedade precisa de mim. 

Nesses momentos percebo que eu falhei com o sistema tanto quanto ele falhou comigo. Não consigo me encaixar nele, e não consigo fazer nada de útil para mudá-lo. 

Assim como toda a humanidade, só queria poder fazer um trabalho digno, por um salário digno, que me desse tempo para ajudar os outros, ver meus amigos, curtir minha família. A verdade é que isso é praticamente improvável na minha situação atual. E tem horas que realmente perco a fé em mim, e penso que no fim serei só mais uma pessoa que vive no automático, lutando para sobreviver, e que um dia olhará para trás e se arrependerá de tudo. 

Às vezes sinto que uma hora vou ter que ceder, vou ter que me integrar ao sistema que tanto me enoja. Um sistema que valoriza mais o que você tem do que o que você é, que quer cada vez mais de você em troca de cada vez menos. 

Um sistema ingrato, desumano, voraz, que engole a pessoa e a humilha, chama de fraca, e destrói aos poucos. Um sistema que cada dia lota mais os pronto atendimentos dos hospitais com jovens com problemas cardíacos, psiquiátricos, estomacais, por conta de todo o stress, pressão, arrogância, descartabilidade e falta de humanidade que enfrentam diariamente. E quando temo acabar me rendendo a ele, sei que é só questão de tempo até eu ser a próxima a passar por tudo isso. E não posso, não quero, não admito viver assim. Não nasci uma máquina, e me recuso a me tornar uma. 

Sinto que eu falho todos os dias que não consigo achar um espaço para me encaixar no mundo, que não consigo pensar em como fugir do sistema e ao mesmo tempo viver nele. É um desafio cruel. Achar uma alternativa que me mantenha humana no meio de tantas máquinas é extremamente difícil, doloroso, e pesado. 

Estagnei entre o que não fazer e o que fazer. Preciso dar o próximo passo e descobrir o que fazer, porque só saber o que não fazer não é o bastante, nem para mim, nem para a sociedade. 

Agora qual é o próximo passo? Achar um emprego que me permita ganhar o bastante para pagar minhas contas, minha educação e me possibilitar ajudar a quem precisa. Procurei, procuro ainda por esse emprego, mas o que eu acho na  minha área são salários que não pagam nem metade do valor do meu mestrado e nem me possibilitam ter tempo para assistir às aulas. 

A realidade é dura, cruel, não perdoa ninguém, e lidar com ela exige muita força de espírito, muito foco para não se render a esse tipo de emprego só para ter a sensação de que se está fazendo algo, tentando algo, que um dia isso vai melhorar. 

É preciso muita força, coragem, autoconfiança e apoio para chegar a fim do dia tendo em mente, que eu posso até ter falhado hoje por não ter conseguido descobrir o próximo passo, mas eu também venci hoje por não ter cedido e ter me conformado com tudo perpetuando um sistema que sempre quis mudar. 

Por isso meus amigos, eu digo: há dois anos que falho todos os dias, mas há dois anos que venço todos os dias. E vai chegar um dia que vou conseguir dar o próximo passo para lutar contra o sistema, é só continuar buscando. 

Nesse dia terei orgulho de mim, e terei certeza do que já acredito hoje. Todas as críticas, as cobranças, e até as palavras não muito gentis que ouvi não foram para me aborrecer, mas sim pelo medo que tiveram por mim, do que eu me tornaria. 

A intenção foi boa, mas meu caminho nunca foi o apontado pelas outras pessoas, foi o que eu escolhi, não por medo, por orgulho, teimosia, ou por sede de poder e dinheiro, mas por mim, pelo outro que precisa de mim e pela vontade de fazer que ao menos mais uma pessoa compreenda que é sim de grão em grão que a galinha enche o papo. Não se muda o mundo da noite pro dia todo de uma vez, mas ao longo de anos, por meio de uma pessoa que muda outra pessoa, que muda mais uma, e gera uma corrente. 

Quem já luta contra o medo, as críticas e os ataques há dois anos, e sente todos os dias que falhou mais uma vez, mas que sempre lembra no fim da noite que também venceu mais um dia, não vai ceder tão fácil. Persistência, fé em mim e na humanidade, amor ao próximo, desejo de contribuir para um mundo melhor onde as pessoas vivam e não só sobrevivam, tudo isso me ajudará a descobrir como viver no sistema atual sem me vender a ele. Espero que ajude vocês também! Afinal, trocar uma situação ruim hoje, por outra ruim amanhã só para atender as expectativas alheais, não é a solução.