Marquei uma consulta com meu clínico geral. Mais que médico ele é meu amigo e confidente. O único médico que eu tinha certeza que me diria se eu tinha algo ou não. O único que tem coragem de me dizer o que preciso ouvir mesmo quando não quero, que sabe exatamente o que falar quando preciso, que me conhece há anos e sabe não só como meu corpo funciona, mas também minha mente e coração.
Quando entrei no consultório aqueles olhos azuis, que tenho certeza que podem ver minha alma, me encararam por um segundo antes do abraço acolhedor. Contei a ele o que tinha me levado a procurá-lo. Ele conversou mais de hora comigo, me pediu exames para saber se havia algo físico ou se era algo emocional.
No dia que retornei com os exames ele me explicou que não era algo no meu corpo, mas na minha mente. Ele disse que tudo o que eu vinha passando desde 2013 estava pesando... Era muita coisa para uma pessoa só, e que a minha mania de querer cuidar de todos e salvar todos me manteve firme enquanto fui necessária para os outros, mas o dia que pude respirar de novo eu desabei.
Era princípio de 2015 isso. Mas eu já tratava por transtorno de ansiedade e pânico desde 2013. Os remédios me ajudavam a controlar as crises. O suor frio, a dor no estomago, na barriga, no peito, nas costas, a tonteira, a sensação de desmaio, a falta de ar, o tremor, a variação de pressão e a sensação de que ia morrer foram diminuindo com o tratamento. Começaram a durar menos tempo, comecei a conseguir controlar o que estava acontecendo, e quando achei que tinha superado, que estava bem, passei por tudo o que contei ontem.
Morrendo de vergonha olhei pra ele e perguntei: "Por que eu? Por que eu sempre sou a fraca? Por que eu tenho que preocupar todo mundo com tudo o que estamos passando? Por que eu não podia ser normal como o resto? Por que eu não deixava de existir de uma vez? Por que não podia por a cabeça no travesseiro e nunca mais acordar? Por que o mundo não podia acabar naquele instante?"
Com um sorriso no rosto, os olhos cheios de carinho e sabedoria ele me respondeu; "Porque cada um de nós é único, e reage de uma forma diante das dificuldades que passamos. Você não é fraca, não dá trabalho extra para os outros. Na luta pela sobrevivência de lidar com tanta coisa difícil e dolorosa ao mesmo tempo sua mente buscou uma saída, não quer dizer que você não possa assumir o controle e melhorar, mas aceite ajuda para tanto."
Foi quando as doses dos meus remédios começaram a aumentar, e passei a tomar mais de um. Eu havia chegado ao fundo do poço, e o que me restava naquele momento era subir de volta. E foi o que comecei a fazer. Aceitei ajuda da minha família, do meu namorado e dos amigos que amam.
Quando me senti forte o bastante segui o conselho do meu pai e procurei uma psicologa, pois sabia que os remédios só anestesiavam a dor, mas não cuidavam da causa. Isso tem 8 meses. Continuo medicada, continuo na terapia, mas há 6 meses já não desejo a morte, nem que o mundo acabe. Raros são os dias que me acho um peso, e a empatia volta cada dia mais forte.
Não estou curada, mas acredito que um dia posso ficar. Sei que a caminhada é longa, dura, e lenta, mas já não me sinto mais sozinha, inútil, descartável. Quando fraquejo minha mãe segura uma mão e minha irmã a outra. Quando caio, meu namorado me carrega. Quando tropeço, meus amigos me ajudam a tratar a ferida até ficar só a cicatriz.
Eu tive sorte. A ansiedade, o stress, o pânico e a depressão me derrubaram, me tornaram apática em relação a tudo, me fizeram sentir descartável, me fizeram abrir pequenas feridas para trocar a dor emocional pela física, me fizeram começar a morder com tanta força que cheguei a paralisar o lado esquerdo do corpo por uma semana. Me fizeram chegar na janela e me perguntar "e se?", quase me fizeram atravessar na frente de um ônibus, me fizeram desistir de comer, de tomar banho e torcer para a vida acabar já que eu não servia nem pra pôr um fim nela. Mas almas boas interferiram por mim, espíritos elevados lutaram por mim, papai do céu me abençoou, o amor de mãe, de irmã, de namorado e de amigos me deu forças e vem me reerguendo a cada dia.
Por hoje chega, já falei muito. Amanhã conto como a terapia também tem um papel fundamental na minha recuperação, e porque mesmo sem gostar, eu persisto nela.