sábado, 16 de janeiro de 2016

O FUTURO A DEUS PERTENCE. NÃO SOFRA POR ANTECEDÊNCIA. MAS COMO?

No início do dia de hoje escrevi sobre nossa incapacidade de viver o hoje tendo em vista o passado. A intenção era falar sobre o futuro também, mas com meus pensamentos desenfreados percebi que era melhor dividir em dois textos, já estava grande demais. Por isso as frases que serão meu ponto de partida agora são: "o futuro a Deus pertence" "não sofra por antecedência".

A pergunta aqui é se repete: O que está por trás dessas frases? Como conseguiremos deixar o amanhã por lá? O problema também não muda: a mesma sociedade que nos exige tanto ter em mente tanta coisa do passado, nos molda para termos um futuro todo planejado, e exige que vivamos o hoje. Haja hipocrisia. 

No post anterior está nas entrelinhas nossa preocupação quanto ao futuro. Na lógica: ensino médio, depois faculdade, depois emprego, depois sucesso, depois aposentar.

Agora quero usar de exemplo as perguntas dos encontros familiares: "Quando você forma?" "Vai fazer o que quando formar?" " Em qual área você vai trabalhar?" "Onde você vai morar quando sair de casa?" "Ou vai ficar com seus pais pra sempre?" "Não vai namorar ninguém não? Seu tempo está passando. Hoje é quem eu quero, amanhã é quem me quer" "E o namoro? Casa quando?" "E o primeiro filho? é pra quando?"

Só falta perguntar "E a morte? É pra quando?". Mas essa pergunta ninguém faz! Justamente a única que podemos responder honestamente sem sermos julgados: "Pra quando ela vier"! Ninguém gosta de pensar nela. É pesado né? Mas não é mais pesado do que viver fugindo dela. 

Não quero ser radical. Sei que temos que ter um mínimo de planejamento para sobrevivermos nesse modelo social que nos devora. Só quero que aprendamos a viver nele, e não só sobreviver.

Visto que nascemos com uma certeza na vida: a de que vamos morrer, e que não sabemos quando, por que gastamos tanto tempo planejando o amanhã que pode nem acontecer? Que tipo de sociedade é essa que construímos? De onde vem o horror trazido pela morte? 

Afinal, construímos esse modelo de sociedade pelo desespero de poder controlar o máximo que pudermos, já que não podemos controlar a morte? Ou, o modelo social que construímos nos levou a ter esse pavor de não podermos controlar a nossa única certeza - a morte? A resposta tanto faz. O fato é que somos seres planejadores, controladores, obcecados com o nosso futuro. E como lidar com isso? 

Ter em mente que controlamos o futuro é mera ilusão, é o primeiro passo. O segundo é aceitar que a morte é nossa companheira diária, e não a grande vilã. Ainda não sei quais são os próximos, estou lutando para dar esses dois ainda! Só sei que temos que começar por algum lugar.

A questão é que passamos tanto tempo preocupados com o que teremos ou não no amanhã, esquecendo o que temos hoje, que não vivemos o agora. Sobrevivemos em busca do que virá depois. 

Então quando nos disserem as frases lá do primeiro parágrafo e pensarmos: "É tá certo. Deixa pra lá, quando chegar a hora eu vejo o que faço", e quando falharmos em agir assim, saibamos que não é nossa culpa. Crescemos em um mundo que valoriza o ontem e o amanhã. 

Mas nessas horas lembremos do detalhe mais importante: somos nós que construímos a sociedade em que vivemos. Cabe a cada um de nós ir trabalhando aos poucos para mudar isso. Como? Comecemos por nós mesmos. Seguindo os passos acima perguntemos às pessoas como elas estão hoje. Não sobre o que farão ou serão amanhã. Todo o dia ao levantar saibamos que a morte está caminhando lado a lado com a gente, e que quando ela nos chamar, tudo o que esperávamos acontecer, tudo o que planejamos, não interessa mais. 

PASSADO É PARA FICAR POR LÁ, MAS COMO?

Sempre escutamos que passado é passado, que é pra gente superar, seguir em frente, viver o hoje. De fato nos focamos muito no que já aconteceu e esquecemos do agora. Mas por que será? O que ninguém nos conta é o que está por trás desse modo de vida e o que nos forma assim, e é isso que vou tentar expor com base na minha parca sobrevivência de cada dia.

O fato é que o passado a gente carrega todos os dias, pois hoje somos frutos do que vivemos ontem. Tudo o que vivemos nos molda a cada instante. Isso vale para nossa vida profissional, social, amorosa, basicamente para tudo. Aí a primeira pergunta que nos faço é: que passado é esse que tem que ficar para trás? A partir de quando? Do ontem? Da semana passada? Do mês passado? Do ano passado? Do dia que algo ruim aconteceu? 

Para mostrar como o passado é rotina e como somos ensinados a carregá-lo diariamente vou pegar o mais óbvio e o mais consome nosso tempo: nossa vida acadêmica e profissional.

Como vamos deixar pra trás os anos de ensino médio? Precisamos deles para passar no maldito vestibular, que não mede conhecimento nenhum, mas na hora de fazê-lo, naquele momento, temos que ter em mente no mínimo o que estudamos nos últimos três anos! Isso considerando que não iremos precisar de cursinhos. Aí a gente passa! Yes! Sucesso! 

Vem a faculdade e percebemos que precisamos ter em mente não só os últimos 3, mas os últimos 4, 5 ou 6 anos, dependendo do curso. A cada período que passamos escutamos: "mas vocês já esqueceram isso? Isso foi do semestre passado! E quando formar? Vão saber é nada". Mas uma hora nos formamos. Yes! Sucesso! 

Agora vou viver o hoje, uhum, vai sim trouxa. Vai ficar é repetindo "saudade da facu, melhor época da minha vida". "Ai se eu tivesse levado ela a sério, hoje ia ser tão mais fácil". O que vamos fazer é nos assombrar sobre o que fizemos e deixamos de fazer que poderia nos ajudar no hoje. Vamos passar por várias entrevistas, e a cada nova que surgir a primeira coisa que virá em mente: "o que fiz de errado na última e o que fiz certo?" A gente se prepara pensando no que já tentou e chega na hora vem a maldita pergunta "E qual a sua experiência?" Pronto, já era, rodamos. 99% das vagas vão nos exigir experiência prévia, mas como é nosso primeiro emprego engolimos seco e repetimos "bom, tirando o estágio, não tenho experiência". A depressão vem, junto com ela a ansiedade, até que finalmente conseguimos nosso primeiro emprego! Yes! Sucesso! 

O tempo passa e somos demitidos ou resolvemos pedir demissão. Ao procurar o próximo emprego nos deparamos com a pergunta crucial: "E o seu emprego anterior, o que aconteceu?" E assim vai até nos aposentarmos. 

Chega o grande momento! Aposentados! Yes! Sucesso! Cumprimos nossas obrigações e agora teremos nossa recompensa. Aí nesse instante percebemos que passamos 30, 35 anos ou mais e vivemos amarrados no passado planejando o futuro. Não sabemos viver o hoje. 

Nosso modelo de sociedade não nos permite esse luxo. E as poucas vezes que tivemos coragem de viver o hoje, foi com aquele sentimento de culpa, de que estávamos fazendo algo errado, e assim a vida passa e nós ficamos.

Agora você olha e me diz: nossa você que não entendeu nada! O ditado não é sobre isso, é sobre o que te fez sofrer, o que deu errado. Mas eu digo: eu sei, mas como que esperam que a gente consiga superar tais coisas, deixando-as pra trás se somos condicionados a vida toda a lembrar do que já fizemos para termos um amanhã? 

É muito fácil dizer pra deixar o passado de lado. Quero ver é a gente conseguir fazer. Apesar de sermos racionais e conseguimos entender que aquilo deve ficar no passado, mas isso não, não somos seres feitos meramente da razão. Somos emoção, e controlar a emoção é muito mais difícil do que usar a razão.

Então não nos culpemos pelo passado que nos persegue. Fomos feitos para carregá-lo conosco, até porque somos avaliados pelo sucesso profissional, acadêmico, pela capacidade de superação dos obstáculos, mas não pela capacidade de viver o hoje.

Por outro lado, não deixemos de tentar. Tenhamos em mente que somos nós quem construímos o modelo de sociedade, então cabe a nós mudá-lo, e a partir do momento que temos isso em mente, o primeiro passo para a nossa liberdade foi dado. Não obstante, não devemos nos iludir, a verdade é que nos libertarmos disso demanda anos de prática. Até lá vamos sobrevivendo condicionados pelo passado para termos o futuro.