Ser mãe é a forma mais pura de amar. Não ser mãe é não conhecer o maior amor do mundo. Quantas vezes já ouvi isso? Sei lá, perdi a conta há tempos.
A minha realidade é simples: não quero ser mãe. É isso mesmo, Você leu certo. Não tenho problema algum com minha decisão. Mas aparentemente eu incomodo milhares de pessoas com isso.
Alguns me respeitam, mas dizem no fim "ah, é porque você é muito nova. Daqui uns anos isso muda." Detalhe: tenho 26 anos. Outros me olham e perguntam:"Mas e seu namorado? Não quer? Você vai fazer isso com ele?" Aí eu respiro fundo, engulo todos os palavrões, e respondo com um sorriso falso "ele entende", quando na verdade a vontade é dizer "isso é entre eu e ele, não te interessa! E de onde você tirou a ideia de que eu deveria fazer porque ele quer?"
O fato é simples: vivemos em uma sociedade patriarcal, e até hoje o papel fundamental da mulher é ser mãe. Escolher não ter uma criança é tido como algo anormal que precisa de tratamento médico e psicológico, pois não existe isso de "não quero, não é da minha natureza" porque "é da natureza de toda mulher ser mãe". Só que ninguém entende que isso não é verdade nem do ponto de vista biológico. Quantas mulheres são estereis? A diferença é que quando é um fator físico que nos impede de ter filhos o mundo entende, morre de pena; mas quando é porque a gente simplesmente sente que não veio ao mundo para isso, é doença ou distúrbio psicológico.
Eu nunca quis ter filhos e pra mim minha resposta é o suficiente: "não é de mim, maternidade não está em mim, não faz parte de quem sou, da minha natureza". O problema é que não basta para o resto. Quantas mulheres sofrem por não quererem ter filhos? Quantas se acham de fato anormais por isso? Quantas nunca nem chegaram a pensar se queriam ou não ser mãe, só se tornaram mãe porque é o "curso natural da vida"?
Me impressiona a incapacidade das pessoas de verem a mulher como uma alma dotada de escolhas, sentimentos, quereres, frustrações e dores, e a capacidade dessas mesmas pessoas de nos reduzirem a um objeto que tem um papel a desempenhar, assim como uma impressora, um grampeador ou uma geladeira.
Me assombra as pessoas não pensarem na criança que poderia vir a nascer de uma mãe que não a quis, que o fez para "cumprir seu papel". Afinal, ser mãe é assumir uma responsabilidade por outra alma, não é uma profissão ou uma obrigação, é uma vocação, e nem todas nós a possuímos. Ser mãe é alimentar o corpo e a alma. Quantas crianças são abandonadas em lixeiras, igrejas, residências, pois as mães não quiseram tê-las? Quantas vivem com uma mãe ausente, que as veste, alimenta, educa, mas não cuidam da alma, pois se tornaram mães por obrigação?
Já sofri muito por isso. Achei que tinha algo errado, Pedi ajuda à psicologa, a Deus e a minha própria mãe. E essa sim nasceu pra ser mãe. Na sua imensa sabedoria, capacidade de conforto e no seu amor infinito ela me disse: "não sei como não é querer ter filhos Fernanda, eu sempre quis, mas isso não te torna pior que ninguém, nem doente, só mostra que você é capaz de reconhecer quem é, e talvez um dia isso mude, talvez não. A verdade é que não tem problema."
E do conselho da minha mãe tirei uma conclusão sobre todas nós que optamos por ser tias, amigas, primas, irmãs, mas não mães: Somos inferiores, loucas, desequilibradas por isso? Não, somos fortes demais. Mesmo diante da pressão que sofremos, temos consciência do que a maternidade envolve e não destruímos uma vida para cumprir "nosso papel no mundo".