sábado, 16 de janeiro de 2016

PASSADO É PARA FICAR POR LÁ, MAS COMO?

Sempre escutamos que passado é passado, que é pra gente superar, seguir em frente, viver o hoje. De fato nos focamos muito no que já aconteceu e esquecemos do agora. Mas por que será? O que ninguém nos conta é o que está por trás desse modo de vida e o que nos forma assim, e é isso que vou tentar expor com base na minha parca sobrevivência de cada dia.

O fato é que o passado a gente carrega todos os dias, pois hoje somos frutos do que vivemos ontem. Tudo o que vivemos nos molda a cada instante. Isso vale para nossa vida profissional, social, amorosa, basicamente para tudo. Aí a primeira pergunta que nos faço é: que passado é esse que tem que ficar para trás? A partir de quando? Do ontem? Da semana passada? Do mês passado? Do ano passado? Do dia que algo ruim aconteceu? 

Para mostrar como o passado é rotina e como somos ensinados a carregá-lo diariamente vou pegar o mais óbvio e o mais consome nosso tempo: nossa vida acadêmica e profissional.

Como vamos deixar pra trás os anos de ensino médio? Precisamos deles para passar no maldito vestibular, que não mede conhecimento nenhum, mas na hora de fazê-lo, naquele momento, temos que ter em mente no mínimo o que estudamos nos últimos três anos! Isso considerando que não iremos precisar de cursinhos. Aí a gente passa! Yes! Sucesso! 

Vem a faculdade e percebemos que precisamos ter em mente não só os últimos 3, mas os últimos 4, 5 ou 6 anos, dependendo do curso. A cada período que passamos escutamos: "mas vocês já esqueceram isso? Isso foi do semestre passado! E quando formar? Vão saber é nada". Mas uma hora nos formamos. Yes! Sucesso! 

Agora vou viver o hoje, uhum, vai sim trouxa. Vai ficar é repetindo "saudade da facu, melhor época da minha vida". "Ai se eu tivesse levado ela a sério, hoje ia ser tão mais fácil". O que vamos fazer é nos assombrar sobre o que fizemos e deixamos de fazer que poderia nos ajudar no hoje. Vamos passar por várias entrevistas, e a cada nova que surgir a primeira coisa que virá em mente: "o que fiz de errado na última e o que fiz certo?" A gente se prepara pensando no que já tentou e chega na hora vem a maldita pergunta "E qual a sua experiência?" Pronto, já era, rodamos. 99% das vagas vão nos exigir experiência prévia, mas como é nosso primeiro emprego engolimos seco e repetimos "bom, tirando o estágio, não tenho experiência". A depressão vem, junto com ela a ansiedade, até que finalmente conseguimos nosso primeiro emprego! Yes! Sucesso! 

O tempo passa e somos demitidos ou resolvemos pedir demissão. Ao procurar o próximo emprego nos deparamos com a pergunta crucial: "E o seu emprego anterior, o que aconteceu?" E assim vai até nos aposentarmos. 

Chega o grande momento! Aposentados! Yes! Sucesso! Cumprimos nossas obrigações e agora teremos nossa recompensa. Aí nesse instante percebemos que passamos 30, 35 anos ou mais e vivemos amarrados no passado planejando o futuro. Não sabemos viver o hoje. 

Nosso modelo de sociedade não nos permite esse luxo. E as poucas vezes que tivemos coragem de viver o hoje, foi com aquele sentimento de culpa, de que estávamos fazendo algo errado, e assim a vida passa e nós ficamos.

Agora você olha e me diz: nossa você que não entendeu nada! O ditado não é sobre isso, é sobre o que te fez sofrer, o que deu errado. Mas eu digo: eu sei, mas como que esperam que a gente consiga superar tais coisas, deixando-as pra trás se somos condicionados a vida toda a lembrar do que já fizemos para termos um amanhã? 

É muito fácil dizer pra deixar o passado de lado. Quero ver é a gente conseguir fazer. Apesar de sermos racionais e conseguimos entender que aquilo deve ficar no passado, mas isso não, não somos seres feitos meramente da razão. Somos emoção, e controlar a emoção é muito mais difícil do que usar a razão.

Então não nos culpemos pelo passado que nos persegue. Fomos feitos para carregá-lo conosco, até porque somos avaliados pelo sucesso profissional, acadêmico, pela capacidade de superação dos obstáculos, mas não pela capacidade de viver o hoje.

Por outro lado, não deixemos de tentar. Tenhamos em mente que somos nós quem construímos o modelo de sociedade, então cabe a nós mudá-lo, e a partir do momento que temos isso em mente, o primeiro passo para a nossa liberdade foi dado. Não obstante, não devemos nos iludir, a verdade é que nos libertarmos disso demanda anos de prática. Até lá vamos sobrevivendo condicionados pelo passado para termos o futuro. 


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