No início do dia de hoje escrevi sobre nossa incapacidade de viver o hoje tendo em vista o passado. A intenção era falar sobre o futuro também, mas com meus pensamentos desenfreados percebi que era melhor dividir em dois textos, já estava grande demais. Por isso as frases que serão meu ponto de partida agora são: "o futuro a Deus pertence" "não sofra por antecedência".
A pergunta aqui é se repete: O que está por trás dessas frases? Como conseguiremos deixar o amanhã por lá? O problema também não muda: a mesma sociedade que nos exige tanto ter em mente tanta coisa do passado, nos molda para termos um futuro todo planejado, e exige que vivamos o hoje. Haja hipocrisia.
No post anterior está nas entrelinhas nossa preocupação quanto ao futuro. Na lógica: ensino médio, depois faculdade, depois emprego, depois sucesso, depois aposentar.
Agora quero usar de exemplo as perguntas dos encontros familiares: "Quando você forma?" "Vai fazer o que quando formar?" " Em qual área você vai trabalhar?" "Onde você vai morar quando sair de casa?" "Ou vai ficar com seus pais pra sempre?" "Não vai namorar ninguém não? Seu tempo está passando. Hoje é quem eu quero, amanhã é quem me quer" "E o namoro? Casa quando?" "E o primeiro filho? é pra quando?"
Só falta perguntar "E a morte? É pra quando?". Mas essa pergunta ninguém faz! Justamente a única que podemos responder honestamente sem sermos julgados: "Pra quando ela vier"! Ninguém gosta de pensar nela. É pesado né? Mas não é mais pesado do que viver fugindo dela.
Não quero ser radical. Sei que temos que ter um mínimo de planejamento para sobrevivermos nesse modelo social que nos devora. Só quero que aprendamos a viver nele, e não só sobreviver.
Visto que nascemos com uma certeza na vida: a de que vamos morrer, e que não sabemos quando, por que gastamos tanto tempo planejando o amanhã que pode nem acontecer? Que tipo de sociedade é essa que construímos? De onde vem o horror trazido pela morte?
Afinal, construímos esse modelo de sociedade pelo desespero de poder controlar o máximo que pudermos, já que não podemos controlar a morte? Ou, o modelo social que construímos nos levou a ter esse pavor de não podermos controlar a nossa única certeza - a morte? A resposta tanto faz. O fato é que somos seres planejadores, controladores, obcecados com o nosso futuro. E como lidar com isso?
Ter em mente que controlamos o futuro é mera ilusão, é o primeiro passo. O segundo é aceitar que a morte é nossa companheira diária, e não a grande vilã. Ainda não sei quais são os próximos, estou lutando para dar esses dois ainda! Só sei que temos que começar por algum lugar.
A questão é que passamos tanto tempo preocupados com o que teremos ou não no amanhã, esquecendo o que temos hoje, que não vivemos o agora. Sobrevivemos em busca do que virá depois.
Então quando nos disserem as frases lá do primeiro parágrafo e pensarmos: "É tá certo. Deixa pra lá, quando chegar a hora eu vejo o que faço", e quando falharmos em agir assim, saibamos que não é nossa culpa. Crescemos em um mundo que valoriza o ontem e o amanhã.
Mas nessas horas lembremos do detalhe mais importante: somos nós que construímos a sociedade em que vivemos. Cabe a cada um de nós ir trabalhando aos poucos para mudar isso. Como? Comecemos por nós mesmos. Seguindo os passos acima perguntemos às pessoas como elas estão hoje. Não sobre o que farão ou serão amanhã. Todo o dia ao levantar saibamos que a morte está caminhando lado a lado com a gente, e que quando ela nos chamar, tudo o que esperávamos acontecer, tudo o que planejamos, não interessa mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário