terça-feira, 26 de janeiro de 2016

COM A CULPA SÓ NOS RESTA SOBREVIVER, POIS O VIVER, ELA DEVORA

Há uns dias escrevi sobre o medo de sobreviver e o de viver. Agora quero escrever sobre um medo específico que me preocupa. Como ser eu mesma sem sentir culpa?

Desde pequena sempre tive medo de errar, de falhar, de passar vergonha, de ser "pior" que os outros, de ser fraca, de ser nervosa demais, de ser bruta demais, de ser do contra demais, de questionar mais que o permitido. Não que eu deixasse de fazer tudo isso por medo, mas deixei algumas vezes, e nas que fiz, me culpei por ser "assim".

É verdade que não tenho memorias de antes dos meus 12 anos. É tudo preto, como se eu tivesse nascido nessa idade. Não lembro de nada da minha infância até então, e por mais que eu me esforce, o máximo que consigo são uns poucos flashes e todos envolvem momentos que não fui a filha esperada, que falhei, que ouvi "por que você é assim? por que faz isso?" 

Não quero culpar meus pais por ser esse poço de culpa hoje. De forma alguma. Tudo que ouvi foi porque além de ser a mais velha, sou a filha mais "diferente", a mais difícil de lidar porque não sou como minha mãe, e lidar com o novo é muito difícil para ela, e para o meu pai também. 

Eu simplesmente nasci o oposto do que eles esperavam, e a cada ano que passava isso foi se confirmando, principalmente porque meus irmãos nasceram e desenvolveram suas personalidades como o esperado por eles. Daí as perguntas que tanto ouvi, tentei explicar e não consegui. Daí as brigas, os castigos, palavras que abriram feridas na alma de ambos os lados e que ainda não cicatrizaram. 

Hoje sei que tudo que ouvi deles foi uma tentativa de me entender, foram atos desesperados pelo medo do que eu poderia me acontecer. A raiva já amansou, mas o sentimento de culpa que eu desenvolvi ainda permanece, e é com ele que eu queria aprender a lidar. Ele veio de conflitos, de palavras, gritos, castigos, choros e da frustração de não "me encaixar" por mais que eu me esforçasse.

Não é que hoje eu não goste de mim, da minha "diferença" e do que ela me tornou. Com o tempo aprendi a gostar, mas isso me atormenta até hoje. Toda vez que preciso tomar uma decisão que vai de encontro ao que meus pais consideram "correto", "de respeito", "bonito de ser feito" sinto que eu sou a pior pessoa do mundo, que eu estou falhando e fico procurando motivos para pensar como eles. Motivos que por sinal quase nunca acho. 

O fato é que me tornei uma pessoa cheia de culpa por coisas que minha razão me diz que não há problema algum. Eu só queria aprender a lidar com a emoção, pois não deixo de fazer o que eu acho "correto" porque não coincide com o que me foi "ensinado", mas porque eu faço e sinto o peito pesado, tenho pesadelos horríveis sobre a opinião dos meus pais em relação à minha decisão, choro dias antes e depois, perco o sono, fico com raiva de mim mesma por ser assim e não saber melhorar.

E a única conclusão que consegui chegar até hoje é que ter controle sobre a nossa racionalidade não é nada perto de ter controle das nossas emoções, e não dá pra viver tendo um ou outro, só sobreviver, e isso não é o bastante para mim, quero viver.

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